DO CRIME PARA CRISTO

Walney Rodrigues Quevedo saiu da prisão em 1988 e hoje é presbítero da Igreja Assembléia de Deus – Ministério Restauração, tendo pastoreado igrejas nas cidades de Canoas, Arroio Grande e Espumoso

Confira o testemunho do Walney Rodrigues Quevedo, um homem que foi radicalmente transformado por Deus ao ler a Bíblia na prisão e trocou o mundo do crime por uma vida íntegra de paz e alegria na presença de Deus:

Como meus seis irmãos, nasci e me criei num lar perturbado, pois meu pai era alcoólatra e com a minha mãe eu não me entendia, brigávamos muito.

Enquanto meu pai nos deixava, para retornar meses depois, fui crescendo e brigando com ele e com meus irmãos, ao ponto de agredi-los à faca, marcando-os cicatrizes que levam em seus corpos até hoje.

Como era impossível conviver com a minha família, e como a polícia andava à minha procura, mudei-me para Porto Alegre, já com dezoito anos. Comecei a trabalhar e, à noite, saía com meus companheiros.

Incentivado por “amigos”, em pouco tempo, estava viciado em drogas. Gastava tudo o que ganhava e, como não era suficiente para o vício, comecei a traficar. Conheci delinquentes que me apresentaram às quadrilhas de assalto. Ganhava em um dia o salário de um mês de trabalho. Não havia como parar, estava comprometido com os demais bandidos.

Após alguns anos no mundo do crime, acabamos rendendo um rapaz, filho de um gerente do Banco do Brasil, e sua namorada. Porém, quando fugíamos com sacos de dinheiro e de jóias, fui preso. Recebi minha primeira condenação: setenta e dois anos de prisão.

Dentro do presídio, continuei a traficar. Tínhamos uma quadrilha com 17 pessoas. Lá dentro, a vida era terrível; havia dias que morriam quatro pessoas na nossa cela. Um companheiro meu matou dez pessoas dentro do presídio.

Eu mantinha minha liderança e era respeitado pelos bandidos e, na medida em que o tempo ia passando, aprofundava-me cada vez mais no mundo do crime, já acostumado àquela vida.

Eu não tinha mais contato com minha família e só pensava em fugir.

Certa vez, combinei com um rapaz, um homicida, para fugirmos por cima do telhado. Diariamente nos preparávamos para o dia da fuga, fazendo exercícios físicos, pois teríamos que pular o muro e correr muito até alcançar os morros. Planejamos todos os detalhes.

Um dia, cheguei muito angustiado à cela desse companheiro, sentindo algo que eu não podia explicar. Perguntei se ele não tinha alguma coisa para eu ler e ele disse: “A única coisa que eu tenho é essa Bíblia, que a ‘coroa’ deixou aí”.

Eu nunca tinha lido uma Bíblia! Nunca havia tido contato com uma igreja!

Lembrei-me do “Toninho-Carne-Seca”, que antes de roubar rezava, e eu ficava rindo dele, porque não acreditava nessas coisas.

Mesmo depois de haver entrado para o mundo do crime, nunca havia recebido um folheto, um convite, nada; para mim, Deus era um velhinho de cabelos brancos que já tinha feito a parte dele e agora tínhamos que fazer a nossa.

Comecei a ler a Bíblia na minha cela, com dificuldades, pois eu só falava através de gírias. Gênesis eu pronunciava “gêneses”; Êxodo era “êxedo”.

Quando li a parte em que Deus falou a Moisés que “o gemido do povo tinha chegado até ele”, fui tocado, e o Espírito Santo falou ao meu coração: “Deus não é um velhinho cansado, mas, sim, alguém que se importa com o nosso sofrimento”.

Comecei a pensar: “Como esse Deus é bom! O povo caminha um pouquinho e peca, e Ele, ainda assim, cuida deles”. Aquilo chegava a me deixar irado, mas eu sentia que o Espírito Santo falava comigo, confortava-me, dizendo-me que para os meus pecados também havia perdão. Eu me sentia culpado, lembrava a minha infância, do quanto maltratei minha família e das coisas terríveis que havia praticado.

Apesar de ser visto como bandido e manter esse “status”, eu sabia que não era nada. Mas tinha que manter a posição, pois eu assumi o mundo do crime e não via saída para escapar daquela situação. Vários companheiros meus morreram naquela situação; e eu sempre achava que seria o próximo. Lembrava-me dos meus irmãos, que estavam todos bem, que conseguiram suportar as dificuldades, e ficava triste, pois só eu tinha entrado no crime.

Na medida em que ia lendo a Bíblia, sentia que Jesus tocava meu coração. Eu não sabia quem era Jesus, mas sentia que Ele podia mudar minha vida. Se Deus, por amor, libertou o povo de Israel, poderia fazer o mesmo em minha vida.

Chegou um momento em que eu já não queria mais comer nem falar com ninguém, só queria ler a Bíblia dia e noite. Meus companheiros diziam que eu havia pirado.

Antes de começar a ler a Bíblia, eu estava na cela, dentro do banheiro, escovando os dentes, e um rapaz entrou. Eu disse para ele que íamos matá-lo porque ele havia ocupado o mesmo espaço do banheiro comigo. Depois, fiquei sabendo que ele era filho de crente e estava desviado. Com medo da ameaça, entrou para sua cela e nunca mais saiu, até o dia em que voltou para Jesus e começou a fazer cultos dentro de sua cela.

Um dia, ele saiu e me disse: “Que bom que você está lendo a Bíblia. Faço cultos na minha cela, quer vir assistir?” Explicou-me ele que lá nós iríamos falar da Palavra. Mas eu não tinha forças para sair da minha cela; tinha vergonha, pois sabia que os outros presos iam zombar de mim! Diriam: “Quevedo, tu é um sequestrador, saiu na revista VEJA, na ISTO É, teu companheiro escreveu o livro Receita de um Bandido, e agora você vai virar crente? Tu pirou?” Mas aquele rapaz insistia: “Vamos, Quevedo, em nome de Jesus”.

Um dia, enrolei a Bíblia em uma blusa velha, saí correndo e entrei na cela onde seria o culto. Então, o irmão que estava dirigindo o culto começou a cantar o hino 15 da Harpa Cristã “…foi na cruz, foi na cruz, onde um dia eu vi meus pecados castigados em Jesus…”

Ao ouvir aquele hino, senti algo diferente, chorava muito e, por mais duas vezes, no mesmo culto, pedi que o irmão cantasse aquele hino. Estavam todos olhando na minha direção. Naquele momento, eu aceitei Jesus em minha vida. Glória a Deus!

No dia seguinte, o meu fornecedor de drogas enviou material. Eu só conseguia pensar que havia aceitado Jesus, mas não deu tempo de pensar no que faria, pois muitos presos já entravam querendo fumo. Fui tão pressionado, que acabei fumando.

Então, tive um delírio que nunca havia tido antes: comecei a ver muitas pessoas se matando, sangue sendo derramado no corredor. Lembrei-me do irmão e fui para a cela dele. Cheguei lá apavorado, meu queixo parecia que tinha uns dois metros. Era muito estranho o que eu sentia. Eu não sabia orar, mas eu fiz um propósito com Deus em pensamento: se eu fosse liberto daquele mal eu nunca mais iria fumar. Aos poucos aquilo foi diminuindo e, de repente, sumiu. Deus me libertou radicalmente e logo eu mesmo comecei a fazer cultos ali no presídio.

O pessoal perguntava: “por que tu virou crente?” Eu dizia: “Foi Jesus que me escolheu, me tocou, nem eu sei explicar, porque é uma coisa muito tremenda”.

Até então, não tinha contato com a minha família e sentia saudades. Nem sabia que eles tiveram conhecimento que eu estava no crime através do programa Fantástico, da Rede Globo. Mas Jesus usou o Pr. Sérgio Cortez para fazer o primeiro contato com eles e o Senhor se encarregou de tudo. Nunca mais deixei de receber a visita dos meus familiares.

Todo preso que é considerado perigoso tem que passar pelo exame de biotipologia para análise da situação. Fui analisado durante vários meses, e precisava de alguém que desse uma referência boa de mim. Então, a esposa do Pr. Sérgio Cortez se prontificou a fazer isso. Os presos sempre diziam para o Pr. Sérgio: – “Não adianta você visitar isso aí, esse não tem mais jeito, você tem que botar um barril de pólvora dentro dos pés dele e estourar tudo, tá perdendo teu tempo com o Quevedo!” Mas Deus havia colocado ali os Seus servos, que olhavam para minha alma e não para meus pecados.

O Senhor Deus olha para a tua alma e não vê as tuas imperfeições, porque as Suas misericórdias são infinitas. Depois que aceitei a Jesus, fiquei apenas mais três anos na prisão. Jesus me deu vitória: uma família abençoada e a verdadeira liberdade, que só Ele pode oferecer a qualquer homem.

Para finalizar, quero dizer-te que Deus olha para a tua alma e não vê as tuas imperfeições, porque as Suas misericórdias são infinitas; Ele te ama e tem poder para te libertar como libertou a mim.

Walney Rodrigues Quevedo

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Equipe de comunicação da Igreja Pentecostal Assembleia de Deus - Ministério Restauração.

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