UM DIA SEM FIM

“E, havendo Deus terminado no dia sétimo a sua obra, que fizera, descansou nesse dia de toda a sua obra que tinha feito. E abençoou Deus o dia sétimo e o santificou; porque nele descansou de toda a obra que, como Criador, fizera.” (Gênesis 2.2-3)

Introdução

Vemos, ao longo do Antigo Testamento, uma ênfase muito grande sobre o shabat, que, traduzido para o português, é a palavra sábado. A Bíblia mostra que esse evento observado antes de Cristo era sombra do corpo que haveria de vir, ou seja, apontava para Cristo. Mas o shabat deve continuar sendo observado em nossos dias como foi pelo judaísmo? Se era um símbolo de algo que viria, qual é o seu significado? É o que veremos nesta lição.

I. Um Dia Especial

A Bíblia mostra-nos, no livro de Gênesis, que Deus criou a terra em seis dias. Como veremos abaixo, essa ação do Criador foi uma restauração da terra que um dia havia sido criada, mas, por algum motivo, fora destruída. Na sua misericórdia e propósito divino, Deus olhou para este mundo e decidiu refazê-lo conforme a Sua vontade. Após seis dias de trabalho, o Senhor descansou. O dia sétimo da criação é o dia do descanso de Deus.

1. Qual foi a duração do dia de Deus durante a criação?

Esse dia significa um período de tempo. Não é vinculado necessariamente a um dia específico da semana, nem a um dia de 24 horas, pois o sol foi criado no quarto dia da criação, ou seja, quando iniciaram-se os dias com duração de 24 horas devido à rotação da Terra em torno de si mesma e em volta do sol, a contagem dos dias da semana de Deus já havia se iniciado há três dias. Logo, percebemos que o “dia” de Deus é um período de tempo estabelecido por ele, antes que o homem tivesse a concepção de dia que possui hoje. Esse, na verdade, é o sentido da palavra hebraica “yowm”, traduzida, em Gênesis 1º, como “dia”.

2. O dia em que tudo já estava concluído

“E abençoou Deus o dia sétimo e o santificou; porque nele descansou de toda a obra que, como Criador, fizera” (Gn 2.3). Nesse dia, Deus poderia dizer “está consumado”; a obra que pretendia fazer estava concluída.

“Chamou Deus à luz Dia e às trevas, Noite. Houve tarde e manhã, o primeiro dia.” (Gn 1.5)

“E chamou Deus ao firmamento Céus. Houve tarde e manhã, o segundo dia.” (Gn 1.8)

“Houve tarde e manhã, o terceiro dia.” (Gn 1.13)

“Houve tarde e manhã, o quarto dia.” (Gn 1.19)

“Houve tarde e manhã, o quinto dia.” (Gn 1.23)

“Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom. Houve tarde e manhã, o sexto dia.” (Gn 1.31)

“E, havendo Deus terminado no dia sétimo a sua obra, que fizera, descansou nesse dia de toda a sua obra que tinha feito.” (Gn 2.2)

Por que não houve tarde e manhã do sétimo dia? Teria sido por esquecimento de Deus a ausência desse termo delimitador de tempo em Sua Palavra? Cremos que não. Essa ausência se justifica por um único motivo: ainda não houve a tarde e a manhã do sétimo dia, ou seja, o dia sétimo ainda não terminou.

Esse sétimo dia não teve fim, pois é o dia da obra divina concluída, e uma obra concluída nunca deixa de estar concluída. A humanidade passou a viver no sétimo dia de Deus, de Sua obra, ou seja, passou a viver dentro de um projeto já concluído por Ele. Aquilo que é concluído permanece. Estamos vivendo dentro do sétimo dia da criação (ou “recriação”) da terra física.

II. Deus e Seu Projeto de Restauração

A visão da recriação do mundo (descrita em Gênesis 1.2 e versículos seguintes) é o retrato da obra de Deus no homem.

1. A terra original e sua recriação

Vemos que no princípio (Gn 1.1), não sabemos há quantos milênios, Deus criou a terra (que podemos chamar de “terra original”), provas da qual temos nos fósseis que estão soterrados nas profundezas do solo e sob os oceanos. Embora não tenha sido criada para ser destruída, após algum tempo de sua existência, essa terra tornou-se sem forma e vazia. “A terra, porém, estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas.” (Gn 1.2)

Foi sobre essa terra sem forma que Deus começou a agir com o seu poder criador, e reconstruiu-a conforme está descrito nos capítulos 1 e 2 de Gênesis.

2. O homem torna-se um caos e carece de restauração

Assim como, no princípio, a terra original foi criada, tendo após se tornado em caos, assim também o homem foi criado originalmente por Deus em pureza, e colocado no Jardim do Éden (Éden significa “delícia”). No entanto, pela ação de Satanás e por sua própria voluntariedade (foi o ser humano quem decidiu desobedecer a Deus), o homem tornou-se um caos devido ao pecado.

Deus criou o homem como um ser bom, mas o ser humano tornou-se sem forma e vazio, e coberto por trevas (Gn 1.2).

3. Deus inicia seu projeto de reconstrução da vida do homem

Mas o Espírito de Deus pairava sobre a humanidade. Assim, através de Seu Espírito Santo e pela ação de Sua Palavra (Jo 1.1-4), o Pai passou a trabalhar a fim de recriar o homem.

No decorrer dos séculos, Deus foi construindo o caminho para o renascimento espiritual do homem. Assim como na recriação da Terra física Ele criou as condições para que o homem pudesse viver (criou condições climáticas, vegetação, animais, terra seca e água), Ele passou a criar condições para que o homem pudesse novamente viver, espiritualmente, em Sua presença.

Os dias (períodos) da recriação (a elaboração do plano de salvação: a reconstrução do homem) foram passando…

A partir de Sete, filho de Adão, começa a surgir uma linhagem de filhos de Deus, de homens que andavam com Deus (Gn 6.2):

Enoque andou com Deus (Gn 5.22,24).

Noé andava com Deus (Gn 6.9).

Da descendência de Sem, filho de Noé, Deus chama a Abraão, que passou a andar com Deus (Gn 12.1,2).

No período patriarcal, Deus leva seus escolhidos a viverem por fé. Abraão viveu pela fé.

Após o período patriarcal, chega um novo dia para o projeto de Deus. Ele chamou Moisés para que retirasse Israel do Egito e recebesse uma nova visão.

Deus concede a Moisés a Lei, através dos Dez Mandamentos e de Leis Acessórias.

III. Um Sinal Significativo

No monte Sinai, Deus ordenou a Moisés sobre o sétimo dia:

“Seis dias se trabalhará, porém o sétimo dia é o sábado do repouso solene, santo ao SENHOR; qualquer que no dia do sábado fizer alguma obra morrerá. Pelo que os filhos de Israel guardarão o sábado, celebrando-o por aliança perpétua nas suas gerações.” (Êx 31.15-16).

Sábado, aqui, é a tradução de Shabat, dia de descanso, e não necessariamente o nome do dia da semana (embora o nome do dia da semana tenha sido dado em alusão ao shabat). Shabat é um dia de descanso após seis dias de trabalho.

Vemos que a questão do sábado era tão séria que as pessoas perderiam a vida se não o observassem. E era estritamente relacionada aos filhos de Israel, pois dessa nação sairia Jesus Cristo, que seria o descendente de Abraão (Gl 3.15, 16) em quem as promessas de Deus estavam centralizadas.

Diferentemente da aliança feita com Noé, quando Deus estabeleceu o arco-íris e disse “este é o sinal da aliança estabelecida entre mim e TODA A CARNE sobre a terra” (Gn 9.17 – grifo nosso), a aliança do sábado, pela lei, foi SINAL entre Deus e os FILHOS DE ISRAEL (Êx 31.16,17).

Um sinal é apenas um indicativo; lembra algo. O sinal do arco-íris lembra Deus de que toda a carne que está sobre a terra não será mais destruída pelo dilúvio.

O arco aponta para algo que não deve vir. O sinal do sábado apontava para um corpo (Cl 2.16,17), Cristo, para algo que haveria de vir. Era um sinal para o povo de Israel, do qual sairia o Messias prometido.

No Novo Testamento, essa observância é esclarecida pelo Espírito Santo através de Paulo:

“Ninguém, pois, vos julgue por causa de comida e bebida, ou dia de festa, ou lua nova, ou sábados, porque tudo isso tem sido sombra das coisas que haviam de vir; porém o corpo é de Cristo.” (Cl 2.16-17 ).

Os sábados (Shabat) apontavam para Cristo. Deus queria que Israel se lembrasse de que uma grande obra estava por ser concluída. O grande Shabat estava por vir. E quando chegasse, todos deveriam aceitá-lo e viverem nele. Caso contrário, perderiam a vida.

IV. Etapas de um Grande Projeto

A grande obra que Deus estava construindo, para retirar o homem do estado caótico, é a Igreja. Ele preparou tudo para que, finalmente, o dia da conclusão chegasse:

1º: Separou Noé para um novo início. Quando havia somente água sobre a terra – dilúvio -, mas o Espírito Santo pairava sobre uma família que estava sobre as águas, o que era suficiente para que o novo projeto de Deus prosseguisse.

2º: Separou Abraão para uma nova visão de vida: pela fé.

3º: Separou Moisés, através do qual enviou a lei, que foi o aio que conduzia a humanidade à visão de Cristo (Gl 3.24,25). A função do aio é conduzir a noiva ao noivo. A lei mostrou ao homem o quanto ele é pecador, levando-o a reconhecer que necessita de um salvador pela impossibilidade de não pecar e de ser agradável a Deus pelas suas próprias forças.

4º: Separou juízes para que dirigissem e mantivessem Israel junto a Deus.

5º: Separou reis e profetas, que passaram a apontar, através das profecias, diretamente para Cristo, dando-lhes uma visão muito clara de quem seria Cristo, inclusive com detalhes de sua forma física, seu ministério e sua crucificação (Is 53).

6º: Enviou Jesus Cristo, o Corpo, o Seu Filho, o Unigênito do Pai, o Alfa e Ômega, o Princípio e o Fim, aquEle por quem e para quem são todas as coisas (Rm 11.36). Jesus Cristo veio à terra para se entregar pelo homem, levando sobre si toda a condenação que havia sobre a humanidade. Sem ter pecado, entregou-se pelos pecadores, sendo moído pelas nossas transgressões e levado até a morte pela crucificação. O castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados.

No sexto dia da criação da terra física, foi criado o primeiro Adão. Na última fase do projeto de Salvação, que pela cronologia acima poderíamos chamar de sexto momento, Deus envia Jesus Cristo, o “último Adão” (1 Co 15.45). Era um novo início que Deus estava proporcionando à humanidade caótica pela carência da glória de Deus (Rm 3.26).

V. O Dia da Conclusão de um Grande Trabalho e o Início de um Novo Dia

No sexto dia da recriação da terra física, Deus fez o primeiro homem (Gn 1.24-31). Na sexta etapa da recriação do homem caótico, para que este viesse a ter vida espiritual novamente, Deus envia Jesus Cristo, o “segundo homem”, por quem “veio a ressurreição dos mortos” e por quem “todos serão vivificados” (1 Co 15.21,22). Todos os dias anteriores foram o preparo para que o “segundo homem” viesse (assim como preparou os dias anteriores para a chegada de Adão na recriação da terra física).

“Pois assim está escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente. O último Adão, porém, é espírito vivificante. O primeiro homem, formado da terra, é terreno; o segundo homem é do céu.” (1 Co 15.45,47).

Ao final desse último momento da execução do plano de salvação estabelecido por Deus, “vendo Jesus que tudo já estava consumado, para se cumprir a Escritura, disse: Tenho sede! Estava ali um vaso cheio de vinagre. Embeberam de vinagre uma esponja e, fixando-a num caniço de hissopo, lha chegaram à boca. Quando, pois, Jesus tomou o vinagre, disse: Está consumado! E, inclinando a cabeça, rendeu o espírito.” (João 19.28-30 – grifo nosso).

Era o início do sétimo dia. Tudo estava consumado. Era o início de um dia sem fim para todos os que nele entrem pela fé.

Assim como Deus abriu o caminho do Éden para Adão ter acesso à Árvore da Vida (Gn 2.8) ao concluir a recriação da terra física, quando Sua obra foi consumada no novo 6º dia, Ele abre novamente o caminho para o homem ter acesso à Sua presença e à Árvore da Vida, que é a vida plena em Cristo pelo Seu Espírito Santo. O véu do santuário se rasgou em duas partes de alto a baixo, permitindo o acesso ao Santo dos Santos (Mt 27.51).

Jesus Cristo é o Senhor do sábado (Lc 6.5). Ele é a própria conclusão da obra criadora de seu corpo, que é a Igreja (1Co 12.27).

Assim como Deus abençoou o dia sétimo e o santificou (Gn 2.3), a Jesus Cristo Ele “exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai.” (Fp 2.9-11).

VI. Um Dia Indispensável para que Tenhamos Vida

O sétimo dia é condição espiritual para todo aquele que crê:

“Porque, em certo lugar, assim disse, no tocante ao sétimo dia: E descansou Deus, no sétimo dia, de todas as obras que fizera. E novamente, no mesmo lugar: Não entrarão no meu descanso. Visto, portanto, que resta entrarem alguns nele e que, por causa da desobediência, não entraram aqueles aos quais anteriormente foram anunciadas as boas-novas, de novo, determina certo dia, Hoje, falando por Davi, muito tempo depois, segundo antes fora declarado: Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração. Ora, se Josué lhes houvesse dado descanso, não falaria, posteriormente, a respeito de outro dia. Portanto, resta um repouso para o povo de Deus.” (Hebreus 4.4-9).

Precisamos estar Vivendo no Dia do Descanso de Deus, um Dia sem Fim: Tudo já Está Consumado!

O caminho para o descanso de Deus não é mais sombra. É realidade, e tomado por fé.

“Temamos, portanto, que, sendo-nos deixada a promessa de entrar no descanso de Deus, suceda parecer que algum de vós tenha falhado. Porque também a nós foram anunciadas as boas-novas, como se deu com eles; mas a palavra que ouviram não lhes aproveitou, visto não ter sido acompanhada pela fé naqueles que a ouviram. Nós, porém, que cremos, entramos no descanso” (Hebreus 4.1-3a). O ingresso no verdadeiro shabat, o descanso para o qual a sombra do tempo da lei (Antigo Testamento) apontava, é feito por fé.

Sétimo dia é o tempo de descanso. A obra divina está consumada. Precisamos descansar de nossas obras pela obra que Deus já fez. Esse ingresso no sétimo dia de Deus significa crer na obra de Jesus Cristo e aceitar que todo o plano de salvação está pronto. Basta entrarmos nele, pela fé, e descansarmos em Suas obras. Se não crermos na obra consumada de salvação de Deus, morreremos em nossos pecados, assim como os israelitas morriam se não observassem o sétimo dia físico estabelecido pela lei como sombra da salvação que estava sendo preparada.

“Portanto, resta um repouso para o povo de Deus. Porque aquele que entrou no descanso de Deus, também ele mesmo descansou de suas obras, como Deus das suas. Esforcemo-nos, pois, por entrar naquele descanso, a fim de que ninguém caia, segundo o mesmo exemplo de desobediência.” (Hb 4.9-11).

Conclusão

Após Jesus Cristo ter concluído a obra de restauração do homem, precisamos estar nEle e Ele em nós, fazendo parte de Sua natureza, sua carne e seu sangue, para termos vida em nós mesmos (Jo 6.53-58), e não perdermos a vida, como ocorria com quem não entrava no descanso que era o sinal no Antigo Testamento (Êx 31.15).

O sacrifício de Jesus Cristo tornou possível, na justiça de Deus, a criação de novos céus e nova terra, onde o descanso para a igreja permanecerá para sempre com Ele pela obra que foi consumada no Calvário, o sacrifício perfeito. É a nova aliança (1 Co 11.25), a verdadeira aliança perpétua, pois é real (não mais sombra) e durará para todo o sempre.

About The Author

Pr. James Schimitt Vieira

Superintendente do Departamento de Ensino do Ministério Restauração e membro do Conselho de Doutrina da Convenção de Ministros da IPAD Ministério Restauração. É graduado em Teologia pelo Centro Universitário Cesumar (Unicesumar).

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