UM DEUS DE MISERICÓRDIA

“O que encobre as suas transgressões jamais prosperará; mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia.” (Pv. 28.13)
 

Uma das principais características do caráter de Deus é a sua misericórdia. Deus é a personificação da justiça, mas, antes de aplicar o juízo, Ele aplica a misericórdia: deixa de executar uma pena sobre o merecedor da sanção; perdoa quem não merece perdão; estende o cetro da desculpa a quem não a merece. Na tradição judaica, diziam que o anjo do juízo tem uma só asa, o da misericórdia teria duas, por isso, chega na frente.

Deus está sempre pronto a perdoar. O Salmo 25.10 nos ensina que a misericórdia de Deus está sempre estendida para os que guardam a sua aliança e os seus testemunhos.  Jeremias, por sua vez, afirma que as misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim (Lm 3.22). Os homens erram, erram e pensamos: agora acabou a misericórdia de Deus! Não! Ainda há misericórdia. Nós, os salvos, não o somos por mérito, mas pela misericórdia de Deus. O fato de nos arrependermos é fruto da Sua bondade. Somos salvos porque Deus é longânimo e teve misericórdia de nós. Foi Ele quem mandou alguém pregar para nós, enviou o Espírito Santo e nos convenceu dos nossos pecados. Ele perdoou, justificou, santificou, e nos curou. Não fôssemos alvo da misericórdia de Deus, já teríamos morrido. Dependemos da misericórdia de Deus, por isso só Jesus merece toda a glória, honra e louvor. Entretanto, a mesma Bíblia que diz não terem fim as misericórdias de Deus, nos apresenta alguns fatos interessantes.

Caim, após matar o seu irmão Abel, recebeu de Deus um juízo terrível (Gn. 4). Ele nunca mais pôde retornar à presença de Deus, além de ser maldito sobre a terra. Por que Caim não alcançou a misericórdia divina? Seria porque o crime dele, matando seu irmão, foi hediondo? Seria por causa do motivo fútil do crime (inveja)? Foi por ter sido ele o primeiro homicida? Há um versículo da Bíblia que esclarece o porquê de Caim não ter sido alcançado pela misericórdia de Deus: Disse o SENHOR a Caim: Onde está Abel, teu irmão? Ele respondeu: Não sei; acaso, sou eu tutor de meu irmão? (Gn. 4.9). Deus já sabia o que acontecera com Abel. Deus presenciou o momento em que os dois saíram para o campo. Deus estava prevendo tudo; teve um encontro anterior com Caim e lhe disse: Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo. Em vez de Caim dizer “Deus, eu matei Abel”, ele respondeu evasivamente. Ele mentiu para Deus e ainda tentou convencê-Lo de sua mentira. Deus lhe disse: Que fizeste? A voz do sangue de teu irmão clama da terra a mim. És agora, pois, maldito por sobre a terra, cuja boca se abriu para receber de tuas mãos o sangue de teu irmão.

Essa sentença não foi somente porque ele matara o irmão, mas porque ocultara tal pecado, defendendo-se diante de Deus, menosprezando a onisciência e a onipresença de Deus, que está em todos os lugares e conhece as intenções do nosso coração. Caim rejeitou a grande oportunidade de sua vida. Deus não envia o seu juízo sem antes oportunizar o arrependimento; a misericórdia chega antes do juízo. Quando Deus viu Caim matando o irmão, poderia fulminá-lo; poderia ter dito imediatamente: Por que mataste teu irmão? Mas deu uma chance a Caim, que poderia ter se jogado na Sua presença e dito: “Senhor, matei meu irmão, não resisti; o pecado estava à porta e não consegui dominá-lo”. Agindo assim, ele teria alcançado a misericórdia de Deus, mas ocultou o seu pecado, tentando enganá-Lo, por isso recebeu o Seu juízo.

Outro exemplo de alguém que não alcançou a misericórdia de Deus é Esaú: …atentando, diligentemente, por que ninguém seja faltoso, separando-se da graça de Deus; nem haja alguma raiz de amargura que, brotando, vos perturbe, e, por meio dela, muitos sejam contaminados; nem haja algum impuro ou profano, como foi Esaú, o qual, por um repasto, vendeu o seu direito de primogenitura. Pois sabeis também que, posteriormente, querendo herdar a bênção, foi rejeitado, pois não achou lugar de arrependimento, embora, com lágrimas, o tivesse buscado (Hb 12.15-17). Nas histórias de Esaú e de Jacó, vemos que Esaú nasceu à frente de Jacó, sendo então primogênito. O direito de primogenitura era o direito de ser o patriarca, sucessor de seu pai, Isaque, com direito a receber a sua bênção. Quando os dois cresceram, Jacó era o filho da casa, estava junto da mãe; Esaú era homem do campo, da caça. Um dia, voltando Esaú da caça, Jacó havia preparado um guisado com lentilhas e lhe fez a proposta de troca da primogenitura pela refeição. Esaú aceitou. Jacó significa enganador, suplantador. Isso acontece muitas vezes na vida de homens e mulheres de Deus. Aproveitando-se de um estado de fraqueza e necessidade, o enganador propõe uma troca aos servos de Deus. Nesse momento, Jacó representa a figura do Tentador. Esaú aceita a proposta, vende a primogenitura e, após muitos anos, tendo envelhecido Isaque (Gn 27.1), Esaú ainda lhe escondia a troca. A mãe, Rebeca, sabia de tudo.

Aqui, Isaque é a figura de Deus. Muitas vezes, alguém peca e o vizinho sabe, os familiares sabem, mas não há confissão na igreja; a pessoa guarda aquilo consigo. Também Esaú devia pensar: “vou deixar os anos passarem, quem sabe Jacó esquece e no dia em que meu pai for me abençoar chego antes de Jacó.” Esaú carregou por muitos anos aquele engano; achava que ocultar o erro lhe traria salvação. Hoje, muitos pensam que o tempo ou uma desejada reencarnação poderão apagar os pecados. Defendem que o homem está evoluindo, quando está mesmo é regredindo, com mais corrupção, crime, ódio e guerras. Cada geração vem mais corrompida. Esaú deveria ter chegado a Isaque e dito: “Meu pai, cometi um erro, negociei o direito de primogenitura com o meu irmão, que se valeu de um estado de necessidade minha. Eu tinha ido caçar para ti, voltei com fome e acabei fazendo tamanha bobagem”.

Quantas vezes vemos uma pessoa que está fazendo a obra de Deus tropeçar, pois o enganador se aproveitou de uma fraqueza sua. Esaú estava caçando para Isaque, que também por isso o amava. Quando Isaque se encontrava próximo à morte, a sua esposa, Rebeca, orientou Jacó a receber a bênção antes de seu irmão. Esaú chegou depois de Jacó haver enganado seu pai. Ele esperou algumas décadas, pensando que o tempo apagaria o seu pecado, mas o tempo não apaga pecado. O pecado que alguém comete o achará. Diz a Bíblia: Todos os pecadores do meu povo morrerão à espada, os quais dizem: O mal não nos alcançará, nem nos encontrará. (Am 9.10). O teu pecado, leitor, vai te achar um dia. Esaú esperou décadas, mas um dia o seu pecado o encontrou. Há pessoas que acham que driblando os homens, escapando da disciplina da igreja, enganando pai, mãe, pastor, igreja, vão escapar do juízo de Deus. Há pessoas que acham que mudando de congregação conseguem ocultar-se do seu pecado. Não adianta você fugir do homem ou de você mesmo; você tem que encarar o seu pecado. Quando Esaú quis herdar a bênção, foi rejeitado, pois não achou lugar de arrependimento, embora o tivesse buscado com lágrimas. Não procure desculpar o seu pecado; se não te arrependeres e não confessares, a misericórdia de Deus não te alcança.

Há os que brincam com o pecado, por exemplo, em sites de relacionamento (Orkut, por exemplo), onde, para se cadastrar, mentem que têm 18 anos. Esse pecado figura 24h por dia naquela página. Pode até demorar, mas o teu pecado vai te achar em alguma curva da vida.

Outro personagem que vamos estudar é Judas Iscariotes: Isto disse ele, não porque tivesse cuidado dos pobres; mas porque era ladrão e, tendo a bolsa, tirava o que nela se lançava. (Jo 12.6). Durante três anos, Judas roubou e Jesus nada disse. Chegada a última ceia, último dia do ministério de Jesus na terra, Ele olhou para os seus discípulos e deu uma chance para Judas. O desejo de Judas por dinheiro fizera com que ele entregasse Jesus aos fariseus do templo. Jesus disse: “Em verdade vos digo que um dentre vós me trairá”. Aqui, Judas poderia se jogar aos pés de Jesus. Mas não foi o que ele fez. Quando Judas saiu dali, Satanás entrou nele (Lc 22.3). Judas era um obreiro, mas agora estava endemoninhado. Judas teve três anos para se arrepender e confessar o seu pecado. A misericórdia não o alcançou porque Ele só conseguiu sentir remorso. Tentou devolver as moedas de prata, mas era tarde.

Vejamos, agora, o exemplo de dois homens alcançados pela misericórdia de Deus, embora tenham praticado pecados piores do que o homicídio de Caim, a apostasia de Esaú e o furto de Judas. Primeiro Davi, que cometeu os piores pecados que um homem pode praticar. De início, cobiçou Bate-Seba, mulher de Urias (pecado contra Deus). Em seguida, cometeu o pecado de adultério com ela. Pecado contra ela; contra Deus; contra o seu próprio corpo e contra o marido de Bate-Seba, o soldado Urias. Davi ainda pecou contra o seu exército, porque Urias era um de seus soldados mais valentes e fiéis. Davi mandou matá-lo para ocultar o seu pecado. Como rei de Israel, Davi pecou contra a Nação. Um dia, Deus enviou o profeta Natã para mostrar o pecado de Davi (2 Sm 12); e Davi disse a Natã: Pequei contra o Senhor. Davi confessou e, por isso, alcançou a misericórdia de Deus.

A Bíblia fala também de Paulo, antes Saulo, que foi o pior de todos os homens aqui citados e pior que Nabucodonosor; que os habitantes de Sodoma e Gomorra; que Ananias e Safira; que os assírios; que Pilatos; que os homens que cuspiram no rosto de Jesus. Paulo declarou: Fiel é a palavra e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal. Mas, por esta mesma razão, me foi concedida misericórdia, para que, em mim, o principal, evidenciasse Jesus Cristo a sua completa longanimidade, e servisse eu de modelo a quantos hão de crer nele para a vida eterna. (1Tm 1.15,16 – grifamos) Aquele homem fervia de ódio pela igreja de Jesus; perseguiu e matou crentes, perseguiu o próprio Jesus, que lhe disse: Saulo, Saulo, por que me persegues? Paulo o principal dos pecadores foi alcançado pela misericórdia de Deus, porque reconheceu o seu pecado, a sua miséria.

Até quando veremos um cristianismo de aparência onde cada um tenta justificar o próprio erro? Deus quer te alcançar com a Sua Misericórdia. Se Deus usou o principal dos pecadores, se usou um homem que matou, que destruiu igrejas, que blasfemou e o transformou no maior missionário dos últimos tempos, o que Ele não pode fazer por você?! Não importa se você foi bandido, macumbeiro, homossexual, prostituta, ladrão, assassino, traficante, Deus tem misericórdia de você! Paulo não disse que era o principal pregador, apóstolo, cantor, mas sim que ele era o principal pecador. Ele reconheceu que dependia da misericórdia. Paulo disse: Mas longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo. (Gl 6.14).

Quando alguém deixa de reconhecer o seu erro, procurando justifica-lo, até doutrinariamente, estará caindo no pior erro que alguém pode cair: a cauterização de sua consciência. Alguns dizem que a prática da santificação se trata de “usos e costumes”, com se a doutrina fosse somente para ser discutida em tese, e não aplicada na vida prática. Outros sustentam que Deus quer somente o coração, além de outras aberrações doutrinárias. Tais pessoas passam a julgar o errado como se fosse certo e, por isso, não conseguirão mais se arrepender, estando assim condenadas à perdição eterna. É isso o que a Bíblia ensina em Hebreus 6.4, e versos seguintes: É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro, e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia. Recusando reconhecer o seu pecado, a pessoa não consegue se arrepender. Deus quer perdoar; a pessoa não consegue se arrepender e sucumbe; porquanto, alguns, tendo rejeitado a boa consciência, vieram a naufragar na fé. (1 Tm 1.19)

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Pr. Humberto Schimitt Vieira

Presidente da Igreja Pentecostal Assembleia de Deus Ministério Restauração, no Brasil, e do “Restoration Ministries”, nos Estados Unidos da América. Bacharel em Teologia, é conferencista, editor, professor de Missiologia e autor de diversos livros

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