O PECADO DA ACEPÇÃO DE PESSOAS

“Meus irmãos, não tenhais a fé de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas.” Tg 2.1

A sociedade em que vivemos faz distinção entre seus membros seguindo principalmente três critérios: a situação econômico-financeira, a posição social ocupada e a erudição.

Contudo, a igreja (do grego eklesia = chamados para fora) de Jesus Cristo, embora vivendo nesta sociedade corrompida, não pertence a ela. A noiva do Senhor está no mundo, mas não é do mundo, sua pátria é a Nova Jerusalém.

Portanto, não deve haver acepção de pessoas entre nós. Não podemos diferenciar as pessoas pelos padrões humanos, ou seja, pela cor, nacionalidade, dinheiro que têm, posição social ou política que ocupam e cultura que possuem. Se assim fizermos, estaremos pecando, estaremos desobedecendo a mesma Bíblia que diz “não matarás”; estaremos, portanto, sendo réus do mesmo juízo de um assassino. Deus não faz distinção de pessoas pelos padrões humanos. Para Ele não existe culto ou inculto, mas prudente ou néscio; não existe branco ou negro, mas justo ou injusto; não existe rico, remediado ou pobre, mas frio, morno ou quente espiritualmente; não existe senhor ou servo, mas salvo ou perdido para sempre. Deus não olha o mundo por uma ótica materialista, mas sim por um prisma espiritual, pois Ele é espírito (Jo 4.24). Se pretendemos ser santos porque Ele é santo (I Pe 1.16), não podemos ser carnais, materialistas.

Para o crente espiritual “não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gl 3.28).

Entretanto, quando uma congregação se mundaniza, adere ao materialismo, o pecado de acepção de pessoas avança e as pessoas passam a ser julgadas de acordo com os padrões deste mundo. Naquela congregação os valores espirituais passam a ser desprezados. Não é levado em conta se a pessoa tem uma vida santa, de fidelidade, de comunhão com Deus, mas perquirido se tem dinheiro, cultura ou posição social. Se um pobre chega é desprezado, mas se um grande segundo o mundo aparece, é exaltado. Esquecem-se das palavras de Tiago: “Se tratardes com deferência o que tem trajes de luxo e lhe disserdes: Tu, assenta-te aqui em lugar de honra; e disseres ao pobre: Tu, fica ali em pé ou assenta-te aqui abaixo do estrado dos meus pés, não fizeste distinção entre vós mesmos, e não vos tornastes juízes de perversos pensamentos?” Tg 2.3,4.

Numa congregação mundana, vale mais um pregador com diploma universitário do que um com a unção do Espírito; é dado mais valor a palavras de humana sabedoria do que a demonstração de Espírito e poder; é atribuído mais valor à alma do rico do que à do pobre.

A acepção de pessoas é, ao mesmo tempo, causa e conseqüência da mundanização. No mundo, o erro praticado pelos pequenos é punido, mas praticado pelas elites não o é, ou, até mesmo, nem é considerado como crime pela lei penal. Destarte, o de colarinho suado, puído, rasgado, é julgado com rigor nos seus erros, enquanto o de colarinho branco escapa impune. Surge, assim, a figura “crime-do-colarinho-branco”. A mesma coisa acontece em uma igreja que se deixa esfriar espiritualmente, que relega o poder de Jesus em favor do poder humano. Surge o monstrengo chamado “pecado-do-colarinho-branco”. Os seus praticantes não são exortados a deixarem o mal pelo medo de se perder um bom ofertante, ou o “status” da congregação contar entre seus membros com alguém de alta erudição ou posição social.

Assim, os pecados que os grandes segundo o mundo ou os que, mesmo não sendo, assim se consideram, não são mais tidos como erro e se implantam dentro da comunidade. Se o leitor chegar em uma igreja mundana (se é mundana nem é igreja!) – onde, por exemplo, dominam os costumes do mundo em relação às vestimentas, adornos, cabelo-, indagando verá que, em uma grande proporção, a gênese do mal esteve na acepção de pessoas, causada, por sua vez, pela falta de oração, simplicidade e vigilância. Desta maneira, entra-se num ciclo vicioso: quanto mais mundanismo, maior a acepção de pessoas; quanto maior a acepção de pessoas, mais avança o mundanismo.

Na igreja primitiva não foi assim. Vemos o exemplo de Ananias e Safira que, ao que tudo indica, tinham posses, mas foram exortados imediatamente por Pedro, e fulminados pela ação divina.

Contudo, é bom salientar, não se pode cair no extremo de se marginalizar alguém, talvez por inveja, só porque é grande segundo o mundo. O pecado está em se dar deferência a uma pessoa na Igreja tão somente por ter dotes materiais. No entanto, se além de riqueza, erudição, ou posição social, a pessoa tiver dotes espirituais, deve ter a honra de ser considerado como um verdadeiro servo ou serva de Deus. Através das páginas da Bíblia vemos homens que, embora possuindo alta posição social, relegaram-na a um segundo plano e consideraram como preciosas as coisas espirituais. Moisés era erudito e de alto “status” no Egito; Barnabé era rico; José de Arimatéia tinha posses; igualmente Abraão, Isaque, Jacó, Jó e tantos outros. Mas todos foram homens que souberam se humilhar, tendo tudo e vivendo como se nada tivessem. Notório também é o exemplo de Paulo, que sendo sábio perante os homens, considerou a sabedoria humana tão somente como esterco, como adubo, para que ali pudesse florescer a sabedoria divina.

Prezado leitor, estejamos vigiando, não nos deixando envolver com o pecado da acepção de pessoas, não olhando as pessoas pela ótica materialista, mas pelo prisma espiritual. O que é pecado para o pequeno, também é pecado para o grande. A professora universitária que aborta em uma clínica sofisticada é tão assassina quanto a mulher sem cultura que aborta no quarto escuro de uma “parteira de anjos”. O alto executivo de uma grande multinacional que participa de rodas de “whisky” com seus colegas é tão merecedor de repreensão quanto o operário que toma suas “canhas” no boteco da vila.

Lembre-se: “Bem aventurados os humildes de espírito, porque deles é o Reino dos céus”. (Mt 5.3).

About The Author

Pr. Humberto Schimitt Vieira

Presidente da Igreja Pentecostal Assembleia de Deus Ministério Restauração, no Brasil, e do “Restoration Ministries”, nos Estados Unidos da América. Bacharel em Teologia, é conferencista, editor, professor de Missiologia e autor de diversos livros

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