A MULHER SAMARITANA

“Afirmou-lhe Jesus: Quem beber desta água tornará a ter sede; aquele, porém, que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna.” (Jo 4.13,14)

Estamos diante de uma das mais tocantes passagens do Evangelho: a história da mulher samaritana. A localização geográfica do acontecimento é perto de uma cidade chamada Sicar (v.5 e 6), “junto à fonte de Jacó” – um poço, com mais de 30 metros de profundidade e com um diâmetro de 2 metros e 30 centímetros. Era também chamado de “fonte” porque as suas águas provinham tanto do veio profundo quanto da infiltração abundante em suas paredes laterais. Segundo se entende por certo, a cidade de Sicar aqui mencionada seria a atual aldeia de Askar e a distância entre o poço e a cidade é de aproximadamente 1,5 quilômetros. O horário em que tudo ocorreu foi por volta do meio-dia.

O relato inicia com uma das mais contundentes revelações da humanidade de Jesus: ele estava cansado, com fome e sedento. Mostra-nos que mesmo Jesus tinha necessidade das coisas desta terra e que, portanto, nada há de errado em se buscar descanso físico, comida e bebida para sustento de nosso corpo material.

A seguir, a história apresenta a mulher samaritana. Os “samaritanos” eram israelitas do Norte e, no Novo Testamento, a expressão se refere a uma seita israelita cujo santuário central ficava no monte Gerizim, sob a alegação de que fora ali que Josué teria construído um templo e o tornado o centro de adoração em Israel. Sua história inicia após a captura da cidade de Samaria pelos Assírios, em 721 a.C, e deportação de quase trinta mil israelitas do Norte. Durante o domínio dos impérios assírio e babilônico, a vinda de estrangeiros à região teria produzido uma miscigenação, o que, juntamente com a disputa religiosa em relação ao lugar de adoração, trouxe acentuada divisão dos samaritanos com os israelitas do Sul – os judeus. Para justificar a adoração em Gerizim, os samaritanos acrescentaram o 11º Mandamento ao decálogo – onde se ordena a adoração no Monte Gerizim – e  não consideram como sagrados os livros do Antigo Testamento que não sejam integrantes do Pentateuco – os cinco primeiros livros bíblicos, escritos por Moisés. A seita dos samaritanos, portanto, representa a igreja mundana, “misturada” com o mundo, apóstata, que rejeita a totalidade das Sagradas Escrituras e que torce a Palavra de Deus para tentar justificar seus interesses. Após o surgimento em cena da mulher samaritana, o relato começa a apresentar as características daquela mulher que representa os seguidores nominais de Deus, que têm nome de que vivem mas estão mortos (Ap 3.1).

A primeira delas é a miséria interior que a leva – em nome da tradição, do nacionalismo e do preconceito – a negar a água ao seu semelhante: a mulher se nega a admitir a possibilidade de, sendo samaritana, servir água a um judeu, dado à tradição secular de inimizade entre os dois povos (v. 9).

Depois, a história bíblica relata a desgraça do orgulho religioso. Aquela mulher tinha uma vida totalmente fora dos ditames da lei de Deus. Sua vida familiar e emocional era uma tragédia. Porém, com muito orgulho defendia a tradição religiosa dos “pais” que adoravam naquele monte e orgulhava-se de servir-se d’água do poço aberto pelo patriarca Jacó. Contentava-se pelo fato de pertencer a uma secular “igreja tradicional”. Mas essa tradição não lhe dava nenhuma resposta para seus problemas, lutas, angústias e indagações, além de engodar sua consciência em uma vida de pecado.

Após demonstrar a miséria interior e a desgraça do orgulho religioso, a passagem apresenta a ignorância e cegueira espiritual do crente carnal: “se conheceras o dom de Deus e quem é que te pede”, insinua Jesus à mulher. Aquela mulher conhecia a “história eclesiástica” da “igreja de Samaria” (v.20), tinha conhecimento sobre os feitos do pioneiro Jacó (v.12), sabia tudo sobre as profecias a respeito do Messias (v.25), mas não conhecia o dom de Deus, não conhecia a Cristo e não conhecia Deus (v.22). Era religiosa, era “teóloga”, mas seu conhecimento era meramente intelectual, sua fé era teórica. Aliás, por incrível que pareça, Jesus revela que ela e sua “congregação” eram adoradores (v.22), porém adoravam um Deus a quem não conheciam. Mas agora Jesus lhe desperta para conhecer, para experimentar o dom de Deus e ter uma experiência com o Cristo que ela conhecia apenas pela história e pelas profecias. “Se conheceras…”, dizia Cristo. A palavra “conheceras”, aqui usada por João, é a palavra grega “eida”, que significa “perceber com algum dos sentidos”. Jesus desejava que a mulher o conhecesse, que ela conhecesse o dom de Deus não por informação, mas por percepção, por revelação, por experimentação.

Em quarto lugar, a passagem revela a sede que a mulher tinha. Jesus explica para a mulher que aquela sede era insaciável, que por mais que ela procurasse satisfazê-la, “tornaria a ter sede”. A palavra “sede”, aqui utilizada, é traduzida da palavra grega “dipsao”, que não significa somente ter vontade de beber, mas significa sofrer de sede. É interessante notar que a água do poço provém dos veios subterrâneos, é uma água que provém da terra. Era com essa água que a mulher samaritana queria saciar a sua sede. Da mesma maneira é com a água do mundo que o carnal tenta saciar a sua sede. Porém, sua sede é insaciável. Cada dia ele voltará ao poço da vaidade, ao poço da sensualidade, enfim, aos poços para onde são canalizadas as águas desse mundo tenebroso. Por isso, a Bíblia diz que a inclinação da carne leva à morte espiritual, pois aquele que bebe dessas águas a cada dia terá mais sede pelas águas mundanas. Mas Jesus faz um contraponto. Demonstrando claramente que falava em caráter espiritual, Ele apresenta uma outra água: a “água viva”. Continuando sua preleção, Jesus ensina à mulher que beber dessa água viva acaba para sempre com o sofrimento da sede e a pessoa que dela beber nunca mais será um sedento. Ensinando sobre essa água, Jesus disse: “se alguém tem sede, venha a mim e beba … e o que crê em mim jamais terá sede” (Jo 7.37; 6.35). Portanto, beber dessa água significa ter um encontro pessoal com Jesus e, a partir dessa revelação, crer nele.

Era meio dia. O sol estava a pino. A poeira levantada pelo vento morno fazia os olhos doerem. O cântaro ao ombro. Lá estava a samaritana. Os mais de três quilômetros que a mulher fazia para buscar água eram feitos em mais ou menos 50 minutos. Imaginem o cansaço e o suador dessa mulher. Mas se alguém lhe dissesse: “Não faça isso, fique descansando em casa, não vês que o cântaro machuca teu ombro?”. À tal pessoa a mulher responderia: “Mas é que tenho sede”.

Além do cântaro, possivelmente a mulher trazia um recipiente feito de pele de cabra, semelhante a um balde, que, atado a uma corda, era utilizado para colher a água no fundo do poço. Ela tinha portanto todos os recursos humanos para matar sua sede. Mas de repente ela olha para aquele homem – que não tinha cântaro, que não tinha o balde, que até lhe pedira da água do poço – e o ouve dizer que poderia lhe dar uma água que saciaria sua sede, para sempre! Não, isso não era possível!

Todos os recursos humanos, todo o aparato terreno não pode saciar a sede da alma. Por mais dinheiro, riquezas, fama, recursos que alguém tenha, toda a água que puder apanhar com tais recursos lhe saciará a sede apenas por alguns momentos, para logo em seguida o sofrimento da sede voltar. Então terá que de novo apanhar o seu cântaro, seja ele de ouro ou de barro, pô-lo no ombro, e caminhar a dura senda do deserto mundano e do pecado para tentar saciar sua sede.

O cântaro daquela mulher servia para armazenar a água que tiraria do poço, da mesma forma que um coração carnal armazena os costumes, influências e prazeres desse mundo de trevas. Ao se falar para um carnal que largue o cântaro, por mais pesado que seja, ouvir-se-á a mesma resposta que daria a mulher samaritana: “Tenho sede, tenho sede por essas coisas, eu sofro com isso, qual um viciado qualquer. Por isso tenho que carregar esse pesado cântaro”.

Mas, de repente, Jesus muda tudo aquilo. Como? Com uma tríplice revelação.

A primeira revelação foi a do pecado da mulher. Jesus mostrou-lhe que apesar de sua teologia, de sua tradição religiosa, de ser uma adoradora, de seu orgulho denominacional, não passava de uma pecadora, de uma adúltera.

A segunda revelação foi a revelação de Deus. Diante de todo arrazoado da mulher sobre qual seria o melhor lugar para se adorar – Gerizim, como defendiam os samaritanos, ou Jerusalém, como sustentavam os judeus -, Jesus simplesmente diz: “Deus é espírito”. Deus é espírito e, como espírito, não está sujeito às limitações da matéria, não pode ser preso a “esquemas”, não tem como ser monopolizado por esses ou aqueles, tanto pode estar em Jerusalém como em Gerizim. Para ele atuar, não olha para o lugar e nem para o nome da congregação, mas olha para quem está na congregação. Ele está buscando verdadeiros adoradores, que o adorem em espírito e em verdade: adoradores que vivam em santidade, cuja adoração não seja meras palavras e que tenham corações humilhados e tementes a Deus. Adoração, nos tempos bíblicos, significava simplesmente prostrar-se, pôr o rosto no chão. Adoração não era a pronunciação de palavras, mas atitude. Quando Jesus fala em adoração em espírito e verdade Ele está falando em pessoas que prostrem seus espíritos diante de Deus, em verdade: não apenas de lábios, mas por meio de atitudes que demonstrem que verdadeiramente aquela pessoa submete-se a Deus como rei.

A terceira e última revelação foi a revelação do próprio Cristo. Quando a mulher lhe falou a respeito das profecias sobre o Cristo, “Disse-lhe Jesus: Eu o sou, eu que falo contigo” (v.26). A mulher recebera o impacto da revelação de Cristo. Ela tivera uma experiência pessoal com o Senhor. Agora não era mais apenas informação, não era mais teoria, era realidade! Ela agora conhecia Cristo!

Após receber a revelação de Cristo, após a experiência pessoal que tivera com o Salvador, a mulher perdeu a sede da água da terra. Diz a Bíblia que ela “deixou o seu cântaro” (v. 28) e, debaixo do sol do meio dia, percorreu de volta os quase dois quilômetros até a cidade. Lá chegando, a água que Jesus lhe dera tornara-se uma fonte a jorrar e anunciou a todos que encontrara o Messias. Logo, percorreu mais uma vez o mesmo percurso, agora acompanhada de uma multidão. Veja-se que, sem contar com as andanças pela cidade enquanto anunciava as boas novas, somente no caminho entre o portão da cidade e o poço de Jacó aquela mulher andou quase dois quilômetros! E esquecera o cântaro! E esquecera a sede!

Enfrentamos, nesses últimos dias antes da vinda de Jesus, uma avalanche de pecado e mundanismo entre os auto-denominados evangélicos. As lideranças da igreja que se mantém sinceras e fiéis a Deus lutam para que os cristãos deixem de buscar as águas subterrâneas e larguem os cântaros.

Porém, o que o crente carnal – apegado às águas deste mundo com seus respectivos cântaros – precisa é de um encontro com Jesus, é de uma experiência de salvação, é provar verdadeiramente da água viva.

O cristão que passa pela experiência de conhecer a Deus com seus sentidos, perde a sede do mundo, deixará o pecado e a carne e servirá, com alegria, o Senhor de sua vida.

Trocará o cântaro pelo ministério evangelístico, como fez a mulher, deixará de buscar água do poço de Jacó para ter uma fonte em seu interior, buscando almas para o reino de Deus.

Como está cada um de nós. Será que seguimos curvados debaixo do cântaro ou, livres da carne e do pecado? Estamos correndo para anunciar que encontramos o Messias? Temos uma fonte que nos satisfaz a jorrar em nosso interior ou seguimos dependentes das fontes do mundo para nos sentirmos realizados? O convite que Cristo faz a todos os leitores é “venha a mim e beba”. Quanto mais bebermos de Cristo, tanto mais estaremos livres de sofrer a sede pelas águas deste mundo.

Encerro esse texto com a exclamação de Deus ao povo eleito, por meio do profeta Jeremias: “Porque dois males cometeu o meu povo: a mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram cisternas, cisternas rotas, que não retêm as águas.”

Que essa profecia não seja para nenhum de nós, mas que retenhamos em nosso interior o domínio de Cristo, jorrando sempre a água viva que sacia tanto a nossa sede quanto a sede daqueles que nos rodeiam.

About The Author

Pr. Humberto Schimitt Vieira

Presidente da Igreja Pentecostal Assembleia de Deus Ministério Restauração, no Brasil, e do “Restoration Ministries”, nos Estados Unidos da América. Bacharel em Teologia, é conferencista, editor, professor de Missiologia e autor de diversos livros

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