A Igreja é lugar de pão ou de Pão?

“Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo.” (Rm 14.17)

Introdução

Nestes dias, mais do que nunca, precisamos estar atentos para os ataques do diabo, que busca desviar a igreja de seu verdadeiro objetivo. Ao longo do tempo, essa tem sido sempre uma estratégia utilizada pelo nosso inimigo, pois, à medida que vamos deixando de visualizar aquilo para o qual Deus formou a igreja, ela vai deixando de cumprir os propósitos divinos. Quando isso acontece, esta deixa de ser uma estrutura espiritual, o corpo de Cristo, a noiva do Cordeiro, para tornar-se uma entidade social como qualquer outra, deixando de ser uma igreja verdadeira e ingressando, muitas vezes, no ciclo mundano estabelecido por Satanás com o objetivo de afastar o homem de Deus.

Este é o propósito do diabo: desviar a igreja do seu verdadeiro objetivo, da rota traçada por Deus. Quando isso ocorre com uma igreja, é o início de sua derrota. Assim ocorria nos tempos bíblicos, quando Israel, a igreja do Antigo Testamento, iniciava a confusão com o mundo. Muitas vezes, o motivo parecia “justificável” no início. Mas o final era tragédia. E, quando as consequências chegavam, muitas vezes era tarde demais para que houvesse um despertamento geral com uma retomada do objetivo proposto por Deus.

I. Sociabilidade: uma Armadilha Astuta

Uma das grandes armas que Satanás tem utilizado para desviar a igreja de seu objetivo é a promoção da sociabilidade. Isso não é teoria. É bíblico. No decorrer das décadas em que Deus tem nos proporcionado o pastoreio de igrejas, temos acompanhado, na prática, muitas vezes essa estratégia sendo desenvolvida por Satanás. E, infelizmente, temos visto muitos trabalhos que iniciaram sob a poderosa unção de Deus e acabaram tornando-se apenas grupos sociais, desprovidos de força espiritual, afastados do propósito traçado por Deus, embora mantendo o nome e o status de igreja. Não podemos permitir que isso venha ocorrer num Ministério levantado por Deus para que os Seus objetivos sejam mantidos e proclamados.

1. A forma de ação do maligno 

A forma como o diabo começa a agir, como já mencionamos, muitas vezes é sutil e imperceptível. Nos maiores ataques contra a igreja, ele não aparecerá proclamando ser o diabo e dizendo querer destruir a Igreja. Não. Seus piores ataques são como o câncer, que instala algumas células multiplicadoras daquela característica maligna e, partindo de dentro do corpo, utilizando a estrutura do próprio corpo, sem que a pessoa consiga perceber, começa a destruir aquele organismo. Esse é o motivo por que há tantas mortes através do câncer. É porque, quando as pessoas percebem que há células malignas em seu organismo, a destruição daquelas partes do corpo afetadas já foi efetuada. Não podemos deixar as células malignas nem começarem a desenvolver-se na igreja local, denominação ou Ministério, sob o risco de deixá-las multiplicarem-se até um ponto onde o dano já tenha produzido graves consequências, quem sabe até mesmo irreversíveis.

Exemplo de manifestação desses ataques é a promoção de eventos tendo como foco a alimentação na igreja, tais como almoços beneficentes (estes, além de promoverem um ambiente carnal na igreja, destroem a fé do povo, para que não confiem que é Deus quem nos fornece os recursos necessários), refeições de “confraternização”, refeições antes ou após os cultos, antes ou após escolas dominicais ou outras reuniões da igreja, sem que haja realmente necessidade delas.

As estratégias de nosso inimigo iniciam-se sutilmente, aparentemente, muitas vezes, com boas razões segundo a ótica humana. No entanto, isso faz com que a sociabilidade, camuflada atrás de aparentes boas motivações, vá ingressando e tomando conta da igreja. Aos poucos, o domínio da carne vai instalando-se na igreja e o Espírito Santo, entristecido, começa a afastar-se (Ef 4.30). O caminho para a destruição está instalado.

2. O Pão Vivo do céu: a motivação das reuniões de Jesus Cristo

Alguns mencionam que é bíblico promover “comes e bebes” em reuniões da igreja com base na preocupação de Jesus Cristo com a multidão em algumas ocasiões, quando houve a multiplicação dos pães. Mas, se analisarmos essa passagem bíblica, veremos que:

  1. a) Em primeiro lugar, aquele fato não era uma rotina. Isso fica demonstrado pela surpresa dos discípulos quando ouviram a sugestão de Jesus (Mt 15.33).
  2. b) Em segundo lugar, aquela foi uma oportunidade singular de real necessidade, em que aquelas pessoas estavam há vários dias com Jesus e, se não fossem alimentadas, poderiam desfalecer pelo caminho (Mt 15.32 ).
  3. c) Em terceiro lugar, Jesus tinha como objetivo experimentar os discípulos e exercitar sua fé (Jo 6.6), além de glorificar o Pai.
  4. d) Em quarto lugar, vemos que a motivação daquela reunião não era a alimentação, mas a presença de Jesus Cristo. Precisamos ressaltar que Jesus alimentou a multidão após falar a Palavra. O povo não havia vindo até ele por causa da comida. Aliás, nem sabia que aquela multiplicação iria ocorrer. Eles tinham vindo para conhecê-Lo e ouvi-Lo. E por que eles ficaram um período tão grande com Jesus, mesmo em uma região onde não havia alimento material? É porque Suas palavras eram espírito e vida (Jo 6.63). Ele ensinava com autoridade (Mt 7.29). O povo ficava maravilhado quando o ouvia (Mt 7.28).

3. Jeroboão e sua estratégia carnal

Hoje, as pessoas também precisam vir para a igreja motivadas pela unção do Espírito Santo e pelo poder de Deus presentes nela. É justamente quando falta esse poder, que é a autêntica fonte de atração transformadora, que os líderes carnais buscam subterfúgios que levam a uma sociabilidade nociva à espiritualidade da igreja.

É quando falta o poder de Deus que os líderes carnais começam a utilizar o raciocínio do mundo e do homem natural para buscar o “sucesso” em suas igrejas. Então, passam à prática de Jeroboão que, na ausência de um templo onde Deus habitasse, construiu dois bezerros de ouro para serem adorados (1 Rs 12.26-33).

Racionalmente, parecia ser uma estratégia perfeita: um bezerro foi colocado em Dã, no extremo norte de Israel; o outro, em Betel, no extremo sul. O povo não precisaria se cansar muito para praticar a “nova forma de adoração”. Todos tinham um bezerro bem mais próximo e prático do que o templo em Jerusalém (que ficava em Judá, onde reinava Roboão). Tudo do jeitinho que a carne gostava. Isso ele fez para colocar na mente do seu povo uma saciedade carnal, para que se sentissem satisfeitos com aquelas práticas e não tivessem mais necessidade de buscar a Deus no templo como deveria ocorrer. Para Jeroboão, tudo era válido, desde que o povo não deixasse a “sua igreja”. Quantos bezerros têm sido construídos nas igrejas atuais por líderes carnais!

Para líderes como Jeroboão, a “estratégia” para manter o povo na igreja é proporcionar coisas que agradem a carne e não exijam uma renúncia do homem natural. Para que jejum e oração – dizem estes – se o povo gosta mesmo é de chás, confraternizações, amigos-secretos e tantas outras modalidades de festividades? E, assim, transformam a igreja de corpo espiritual em um clube social.

A reunião do povo de Deus deve ser diferente. Quando se agrupam “um tem salmo, outro, doutrina, este traz revelação, aquele, outra língua, e ainda outro, interpretação. Seja tudo feito para edificação.” (1 Co 14.26).

4. Jesus Cristo não aprovou a sociabilidade na Sua igreja

Essa realidade fica muito clara quando vemos o acontecimento seguinte à multiplicação de pães. Entusiasmados por aquela maravilha, e querendo novamente participar dela, a multidão foi novamente atrás de Jesus Cristo (Jo 6.22-25). Quando finalmente o encontraram, todos ficaram surpreendidos pela reação de Jesus ao seu interesse carnal: “Na verdade, na verdade vos digo que me buscais, não pelos sinais que vistes, mas porque comestes pães e vos saciastes” (Jo 6.26). Jesus Cristo percebeu que havia uma motivação carnal naquela reunião. E foi enfático em sua reação. Disse que a multidão deveria buscar a Ele, o Pão da vida, e não o pão terreno. Além de não multiplicar novamente os pães, exortou tão severamente aquela multidão que, após, muitos o abandonaram (Jo 6.60,61,66).

É isso que ocorre a uma multidão com motivações carnais. Quando se acostumam com algo que agrada a sua carne e aquilo é retirado, afastam-se, pois a sua motivação não é espiritual. Jesus reprovou fortemente aquela intenção carnal do povo.

5. Onde deve estar o prazer da igreja?

A igreja deve buscar seu prazer em Deus (Sl 1.2,3). Ela precisa inclinar-se para o Espírito Santo de tal forma que sua satisfação e alegria estejam em Deus, que seu anelo seja sentir o gozo de Sua presença, e não as sensações enganosas e passageiras da carne. Ter prazer em Deus é um sentimento real. Quem não o conhece, precisa descobri-lo.

E uma estratégia de Satanás é fazer o povo esquecer essa verdade e, assim, tornar seu objetivo a satisfação de sua natureza humana, fazendo-o inclinar-se para a carne de forma sutil, velada, sem perceber que essa atitude gerará morte espiritual (Rm 8.6). Assim, aquela igreja deixa de buscar a Deus de todo o seu coração, alma e espírito, para dedicar-se a entretenimentos fúteis e alimentadores da força de sua natureza carnal.

Porém, para ser vitoriosa, a igreja precisa se esforçar (Mt 11.12) para conquistar esse prazer em Deus, inclinando-se sempre para o Espírito Santo (Rm 8.5). Essa é a característica de uma igreja com vida espiritual.

II. Atividades Sociais na Igreja

1. Trabalho social não é o mesmo que sociabilidade

Precisamos fazer como Jesus e proclamar que a igreja tem a oferecer o Pão da vida, Jesus Cristo, e não um pão carnal que desvia o povo do verdadeiro objetivo da igreja. Não podemos misturar o social com o espiritual no corpo de Cristo.

Existe diferença entre a sociabilidade na igreja e o atendimento social aos carentes. A sociabilidade leva a grandes prejuízos na estrutura espiritual da igreja; por isso, precisamos evitá-la. E mesmo o atendimento social aos carentes, quando necessário, precisa ser realizado por uma estrutura própria desvinculada do propósito fim da igreja, para que os objetivos não sejam confundidos e distorcidos. Vemos que, na igreja primitiva, foi criada uma estrutura diaconal para que realizasse especificamente esse trabalho (At 6.1-7).

2. O trabalho social na igreja primitiva

Embora a organização dos diáconos tivesse como objetivo principal servir as mesas dos necessitados (o trabalho social), eles não podiam ser pessoas carnais. A Bíblia mostra-nos que deveriam (e devem) ser “homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria” (At 6.3). Quando iam prestar atendimento aos carentes, aqueles diáconos não levavam carnalidade, mas alegria e glória de Deus para aquelas casas. Em At 6.8, vemos que Estêvão, um deles, era “cheio de fé e de poder, fazia prodígios e grandes sinais entre o povo”, e não podiam resistir à sabedoria e ao Espírito, pelo qual ele falava (At 6.8,10).

Que maravilha! Os cristãos primitivos não transformaram o poder de Deus em um trabalho social, mas o trabalho social em poder de Deus.

III. O Segredo para o Crescimento da Igreja

A igreja que quiser crescer (e não somente inchar) deverá entrar em uma vida de oração e jejum,amarrando os demônios que impedem que as pessoas compreendam o evangelho, e proclamando a vitória (Mt 12.29; Mc 3.27; Lc 11.22). Os frutos serão vistos. Deus é quem irá trabalhar pelo crescimento da congregação, e a liderança irá agir dentro de Sua direção. Não é preciso promover atrações que agradem a carne para que o povo se aproxime. O Espírito Santo, no momento em que possuir o controle de tudo na congregação, agirá de forma surpreendente, abrirá portas maravilhosas e glorificará o nome de Jesus Cristo. Não impeçamos a liberdade e o domínio do Espírito Santo. Retiremos toda a semente de sociabilidade carnal da congregação. Busque uma revelação de jejum e oração para você e sua igreja. Deus vai responder, e a visão espiritual perfeita dada por Ele vai transformar a realidade de sua congregação. Amém.

Conclusão

A Igreja é um corpo espiritual. Precisamos zelar para que ela não seja corrompida em seu propósito original estabelecido por Deus. A sociabilidade destrói a força da igreja, desviando seus integrantes de um caminho de verdadeira busca das revelações que Deus tem para o Seu povo. Devemos evitar esse mal e seguirmos a orientação bíblica: “Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração.” (Cl 3.16).

 

About The Author

Pr. Otávio Rodrigues Vieira

In memorian - Foi um dos fundadores e 1º Vice-Presidente da Igreja Pentecostal Assembleia de Deus - Ministério Restauração de 14/04/04 a 13/11/08.

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