OBRA EM PRESÍDIOS: UM DESAFIO ACEITO PELO MINISTÉRIO RESTAURAÇÃO

Pr. Sérgio Cortez em um culto realizado no pátio de um dos presídios atendidos pelo Ministério Restauração
Pr. Sérgio Cortez em um culto realizado no pátio de um dos presídios atendidos pelo Ministério Restauração

No versículo 11 da carta de Paulo a Filemom, o apóstolo fala da mudança ocorrida na vida de um ex-criminoso após seu encontro com a Palavra de Deus: de inútil, passou a ser muito útil, inclusive para Filemom, que havia sido provavelmente sua principal vítima. Nesta entrevista, o Pr. Sérgio Miguel Cortez fala sobre o trabalho realizado pelo Ministério Restauração em presídios e revela que o que ocorria nos tempos do apóstolo Paulo continua sendo uma realidade: o encontro com a Palavra de Deus ainda hoje transforma em instrumento de salvação pessoas que não traziam qualquer proveito para a sociedade. Confira:

Portal Restauração – Pr. Sérgio, desde quando tem sido realizado esse trabalho entre detentos no Ministério Restauração?

Pr. Sérgio Cortez – Desde 2005, quando o Pr. Humberto Schimitt Vieira nos convidou para assumirmos a Área São José. Naquela Área, a maior parte dos obreiros faziam parte, na época, da equipe que dava assistência ao Instituto Miguel Dario, que é uma penitenciária de regime semi-aberto. Então, quando assumimos a Área nós já assumimos uma casa prisional. No ano seguinte, em 2006, começamos o trabalho em presídios de regime fechado, através de esposas de detentos da Penitenciária Estadual do Jacuí que procuraram o Pr. Ezequiel Elias, que era o pastor da Sede. Assim foi, então, que deu-se início ao trabalho do Ministério Restauração no Sistema Prisional.

Portal Restauração – Quantas casas de detenção são atendidas hoje?

Pr. Sérgio Cortez – A toda hora abrimos novos trabalhos. Já ultrapassamos 44 casas prisionais no RS, alguns estados do Brasil e fora do Brasil.

Portal Restauração – A sociedade hoje não vê esperança de ressocialização para o criminoso. Tanto é assim que os debates em torno da pena de morte têm se tornado cada vez mais frequentes em todo o país. O que leva o senhor a crer que um detento pode mudar de vida?

Pr. Sérgio Cortez – De fato, a sociedade está perplexa. As pessoas que administram as casas prisionais e os grandes juristas dessa nação se conscientizaram que eles não têm mais o que fazer, a não ser procurar cumprir a lei. Porém, eu trabalho no sistema prisional desde 1982. E, hoje, vejo homens e mulheres íntegros, até mesmo pastores, que são resultado da Palavra de Deus pregada dentro do sistema prisional. A sociedade e os grandes juristas desta nação chegam à conclusão que não têm o que fazer. O sistema está superlotado e as condições são precárias. Mas eles são conscientes e dizem, nos intervalos dos debates, que, se alguém pode fazer alguma coisa, esse alguém é a igreja. Jesus nos disse “Eis que estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos”. Ele também afirmou que, através dEle, nós faríamos coisas maiores até mesmo do que as que Ele próprio fez quando esteve na terra. Isso, aliado aos resultados que temos visto ao longo dos anos, é o que nos leva, é o que nos motiva.

Portal Restauração – Como é feito o trabalho?

Pr. Sérgio Cortez – Ele se divide em duas áreas. Uma é a pregação do evangelho, muito similar às cruzadas evangelísticas ao ar livre. Terças e quartas, em algumas casas prisionais, são dias de visita. Então, se pode fazer cultos no pátio, quando o recluso está ali no seu banho de sol. A gente pega a parte menos ocupada do pátio, reúne uma ou duas pessoas inicialmente, começa a cantar alguns hinos e aquele pessoal vai se aglomerando. Então, se faz um culto relâmpago, oramos por eles e assim se inicia o trabalho. Depois, na galerias, há casos em que o “plantão” – o preso que cuida das grades do corredor para dentro e tem a responsabilidade da disciplina interna – cede uma cela que fica denominada “cela dos irmãos”. Ali nasce uma congregação em que ensinamos a Palavra de Deus. Há casos, ainda, em que uma galeria inteira é formada por pessoas cansadas do crime, que querem mudar de vida. Então, a gente vai ali e dá toda assistência. Montamos minibibliotecas, ministramos o ensino espiritual fundamental, bem sólido, para que se crie de fato uma congregação interna. Nessas galerias, a própria instituição olha aqueles detentos com outros olhos, pois elas se tornam galerias modelo, diferenciadas.

Portal Restauração – Qual é a maior dificuldade na ressocialização do ex-detento?

Pr. Sérgio Cortez – O maior problema é que ele sai com o estigma de ex-presidiário. Isso é algo muito forte e torna muito difícil conseguir um trabalho. Quando ele entrou para o sistema, ele era um problema e, assim, na reinserção à sociedade, obviamente todos o veem com desconfiança. Então, até eles conseguirem conquistar a credibilidade, é muito difícil. Para prepará-los para a saída, eu ministro uma matéria chamada “Choque Transcultural”. Eu falo disso a fim de que eles saibam que vão enfrentar um choque quando forem para a rua. E o primeiro choque que eles enfrentam é justamente a rejeição da família. Eu procuro conscientizá-los de que, embora agora eles sejam servos de Deus, novas criaturas, antes de eles serem templo do Espírito Santo eles tinham outro senhor, e tudo aquilo de mal que fizeram foi real e suas famílias sofreram as consequências de suas atitudes impensadas. Então, é natural que eles enfrentem esse choque na família. Nós preparamos eles para isso. Eu sempre falo para eles que palavras não resolvem. Eles precisam ter uma mudança de atitude. Aqueles que assimilam tudo isso conseguem superar esse choque.

Portal Restauração – Como a família do preso é envolvida no trabalho que sua equipe realiza?

Pr. Sérgio Cortez – Procuramos ir ao encontro dessas famílias, pessoalmente ou através do pastor do local onde vive aquela família. Eu e o Ev. Mauro Padilha trabalhamos integralmente nesse projeto dos presídios. O Ev. Mauro criou um cadastro bem simples, com dados básicos de cada reeducando e informações sobre sua família. Procuramos conscientizar a família de que ela é fundamental para a ressocialização da pessoa. Se a família não receber, não motivar, não acompanhar, até mesmo nos cultos, fica bastante difícil. E a gente tem colhido lindos resultados. Vemos, hoje, famílias inteiras transformadas porque assimilaram essa revelação.

Portal Restauração – Existe alguma experiência que lhe marcou nesse período em que o senhor trabalha nessa área?

Pr. Sérgio Cortez – Sim, existem alguns casos que nos marcaram. Um deles é o de um ex-detento que, no último confronto que teve com as autoridades, tomou um tiro e foi deixado para morrer. Duas irmãs foram orar por ele no hospital. Seu estado era tão terrível, que nem sequer a morfina fazia efeito. A própria medicina tinha consciência de que ele iria morrer. Mas as irmãs foram, oraram por ele e Jesus restabeleceu sua vida. Depois, nós o acompanhamos no regime fechado, vimos a transformação que Deus fez em sua vida e acompanhamos os momentos difíceis que ele passou dentro do sistema. Por querer seguir a Palavra de Deus, foi jogado em uma das piores galerias, mas conseguiu se manter firme como crente. Hoje, ele já está na rua, trabalha em uma lavagem automotiva, tem toda a sua família envolvida na obra de Deus e está sendo usado pelo Senhor para ajudar outras vidas. Esses dias, ele estava em uma de nossas congregações pregando e, no término, pessoas que tinham envolvimento com drogas e álcool que estavam do outro lado da rua adentraram à igreja e caíram prostradas, em lágrimas, confessando o Senhor Jesus como Salvador.

Portal Restauração – Então, quer dizer que pessoas que foram transformadas por Deus lá dentro dos presídios hoje também ajudam outras pessoas a terem também as suas vidas transformadas?

Sim, de forma extraordinária! A Palavra de Deus, como disse o salmista, é enviada para sarar e para evitar a destruição. Segundo o escritor aos hebreus, ela penetra ao ponto de dividir a alma e o espírito, é a Espada do Espírito que corta todos os dardos inflamados do maligno. Até eles terem um encontro com a Palavra de Deus, eles estão debaixo de um jugo. E, como disse Deus através do profeta Isaías, só a unção de Deus pode despedaçar esse jugo. Quando a pessoa chega no sistema carcerário, ele só tem duas alternativas: ou ele faz parte de uma facção, se envolve mais no crime e sai de lá um perito em assalto a banco, tráfico, etc, ou ele ouve a voz mansa e suave de nosso Salvador. Quando ele abre a porta, Jesus entra, faz morada e muda a sua vida.

Portal Restauração – Para finalizar, diga de que maneira o leitor pode oferecer algum tipo de ajuda a esse trabalho.

Sérgio Cortez – Existem algumas formas. Eu me preocupo muito com a “infância” espiritual dos detentos que são alcançados. Então, procuro oferecer para eles aquilo que eu não tive no início da minha caminhada cristã: o ensino sistemático da Palavra de Deus, com bons livros e Bíblias de Estudo. Além disso, também oferecemos roupas, especialmente sociais, porque quando Jesus entra na vida deles, eles têm prazer em mostrar que mudaram e querem vestir-se diferente, com calça, camisa, gravata… Assim, os irmãos que puderem doar itens como esses, na ABRASCE ou em nosso escritório na Sede Internacional, estarão ajudando muito.

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Equipe de comunicação da Igreja Pentecostal Assembleia de Deus - Ministério Restauração.

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